Maria de Fatima Dannemann

Eu não amo meu GPS. Não. Até porque a voz de meu GPS não é a de nenhum artista que eu gosto mas apenas a de uma moça anônima qualquer que fala direitinho. Eu até poderia cair de amores pelo aparelhinho não só porque ele ensina como chegar a qualquer endereço do mundo como pela voz educada que sai do aparelho que eu nem considero amigo, apenas um prestador de serviços pelo preço de uma diária de internet. Eu me admiro quando eu erramos o caminho e o GPS apenas diz “faça o retorno assim que for possível”, na maior calma. Fosse outra pessoa, de repente alguém que eu verdadeiramente amo, e ouviria “sua anta cega, não viu que errou o caminho, não?” e tome palavrões.
O que tem isso a ver com o filme Ela? A voz cibernética. No filme, uma fábula. O sistema operacional Samanta ganha vida e se torna a companheira ideal de Theodore, um nerd solitário que está em processo de divorcio de sua namorada de infância, e tem como única amiga Amy, uma vizinha também em processo de divorcio e igualmente apegada ao mundo virtual. Mas, a fábula tem seus reflexos na realidade: as pessoas cada vez mais mergulham no ciberespaço como se isso fosse salvar sua vida do caos das relações falidas. Acaba se tornando mais fácil enviar um torpedo, um recado nas redes sociais do que falar pessoalmente com alguém. E quando o contato pessoal é inevitável ninguém parece se entender.
No filme, Scarlett Johansson faz a voz da Samanta pela qual Theodore (River Phoenix) se sente apaixonado e acredita que ela é exclusivamente sua e de mais ninguém. Assim como nas redes sociais (seja por smartphone ou computador) as relações travadas com milhares de pessoas são superficiais, muitas vezes imaginária (ninguém é feio na internet, nem problemático ou infeliz. Todo mundo é rico, veste grife e viaja pro estrangeiro, como um rei ou rainha), e Samanta confessa que conversa ao mesmo tempo com 8000 pessoas e se sente apaixonada por mais de 600, pelo menos. E então…
Em meio a ângulos inusitados de uma Los Angeles futurística (mas muito menos Dark do que a Los Angeles de Ridley Scott em Blade Runner), Theodore percebe que ele não é o único a conversar com o computador, ou celular, ou tablet ou sei lá o que for. Todo mundo está teclando, digitando, conversando rindo ou com seus sistemas operacionais ou com seus amigos reais ou virtuais mas que não estão ali. Cenas que vemos por ai todos os dias: pessoas com tablet, notebooks, smartphones teclando ou conversando com alguém distante. Ah, e em mesa de bar acompanhados por amigos ou pela família. Numa visível carência senão de afeto mas com certeza de Ibope.
As vezes parece que o mais importante não é estar na praia, na academia, num jantar ou numa festa: é mostrar aos contatos que está lá. Muitas vezes, o importante nem é emitir sua própria opinião, mas compartilhar e repassar as opiniões dos outros. Clicar em “curtir”, em “retuitar” em “compartilhar”, mostrar que viu e participa. E eu me pergunto a cada vez que encntro alguém na rua que me diz “ah, eu lhe vejo muito no face”: porque não me chamam pra tomar uma? Ou pelo menos ir ali na padaria comprar pão juntos? Nada. De longe é mais fácil. O imaginário pode ser como quiser e Samanta está lá no filme provando isso até que…
Lulu Santos mesmo disse uma vez numa música “tudo passa/ tudo sempre passará”. Pois é. A vida vem em ondas como um mar ou como os bits do ciberespaço e o filme mostra que nada, mas nada mesmo dura para sempre. Nem programas de computador. Vou ser chata contando o fim do filme, mas é preciso: Samanta vai embora. Como as velhas versões do Windows de que guardamos saudades ou não. A mensagem do filme, entretanto, é uma velha e óbvia verdade: nada é mais real do que a vida e está se dá nas relações. De preferência olho no olho, pessoalmente. E se alguma está falida, outra pode estar a caminho enquanto Theo e Amy assistem ao dia nascendo da cobertura do prédio em que moram.
PS: não é por nada não, mas eu adorei o elevador do filme que muda o cenário, pra quem não gosta de ambientes soturnos, é um achado. E antes que eu me esqueça, é bom falar sobre a música belíssima que compensa o figurino horroroso dos personagens principais.