Fatima Dannemann

Eu nunca li um manual de redação. Nem os do jornal onde eu trabalhei. Nem daqueles famosos que são vendidos em livrarias ou banca de jornal. Em compensação, tinha uma moça num dos jornais que eu trabalhei que tinha todos e andava com eles para cima e para baixo. Eu me pergunto para que tanto manual se ela nem era repórter. O que ela escrevia? No máximo uma chamadinha de primeira página. E me pergunto: para que tanto manual? Nunca li nenhum deles porque sempre achei que as gramáticas já têm tudo. E nenhum deles, assim como nenhuma gramática, ensina a fazer um lead, a abrir um texto de modo atrativo, de uma maneira que conquiste o leitor logo na primeira frase e faça com que ele nunca mais lhe abandone (nas próximas matérias também).

A moça do manual (como era mesmo o nome dela, heim?) era uma dessas teóricas que pularam a janela da hierarquia e foi logo ser algo do tipo copydesk, subeditora. Nada contra os manuais, nem contra a pessoa. Nada também contra uma outra pessoa que dizia que não sabia como minhas matérias saiam boas porque eu não tinha técnica nenhuma. E eu pergunto: que técnica? Será que precisa técnica para pisar na lama de feira de São Joaquim com aquele insuportável cheiro de fruta podre e dar gritos de pavor quando uma enorme ratazana cruza seu caminho? E para que técnica para cobrir uma solenidade absolutamente desinteressante apenas porque o patrão pediu? O dia a dia de repórter de cidade se resume a mesmice. Não precisa de técnica, nem manual para transformar essa mesmice em algo interessante. E isso muitas vezes é difícil.

Tornei-me jornalista para concretizar um sonho. Realizei o sonho por um tempo, mas nunca passei de repórter: não me deram muita chance. Ouvia os editores nas reuniões dizendo: “podemos contar boas historias”. Concordo. Mas nem sempre é possível. As vezes é o tempo que conspira contra. Entre a hora que o repórter recebe a pauta, sai do jornal, chega no local da cobertura, a volta, o fechamento, não dá tempo. Bom, não dava. Hoje, com tablets, celulares, e todas as engenhocas que inventaram por ai dá tempo para colocar o texto no ar na internet até na hora que o fato acontece. Outras vezes dão três, quatro pautas e o repórter ainda sai acompanhado de fotografo com outras três, quatro pautas diferentes. E tem assunto que não rende muito mesmo. Então, contar boas historias como?

O jeito era esperar por uma pauta especial ou forçar a barra e transformar um assunto qualquer numa matéria melhorzinha. Mas nem para isso é preciso manual. O manual de redação para mim era algo chato que dizia o óbvio e que eu achava (e ainda acho) que não precisava ler. Quando me enrolava em alguma regra, ia para a gramática ou ao dicionário. Manual para que? Para pular janelas e chegar a redatora, pauteira, subeditora, editora? Eu achava que era possível chegar a tudo isso por talento. Mas não me deram muita chance, como a moça dos manuais deve ter tido (não sei pois ela nunca foi minha amiga). Em vez de manual preferia buscar outros leads, como uma matéria de policia que eu abri com uma poesia, ou contar as tais boas historias. Essas historias me renderam quase uma dúzia de prêmios jornalísticos. Mas eu me pergunto: pra que? Nunca passei de repórter. Será que eu deveria ter lido pelo menos um manual?
PS: na verdade, eu andava com dois manuais. O Manual do Peninha, nos tempos da faculdade, e o Manual do Manuel, um livrinho de piadas de português. Mas essas são outras historias.