Na falta de ter o que fazer, assisto, as vezes, Insensato Coração, da qual eu não gosto e chamo INSENCHATO CORAÇÃO, pois nem parece escrita pelo mesmo autor de Vale Tudo ou Celebridade. No começo da novela, o personagem Kleber (Cassio Gabus Mendes) era um jornalista de economia sério, profissional, empenhado em revelar as falcatruas de Cortez (herson Capri) um banqueiro cheio de “manhas” e carente de escrupulos. Os caítulos foram se sucedendo e eis que, de repente, o banqueiro foi transformado de trambiqueiro em mulherengo doido por “periguetes” mais jovens, todo o papo dele com os assessores se transformou em conversa sobre “vagabundas” como ele costuma chamar as amantes, enquanto Kleber, que seria o mocinho na historia foi transformado num viciado em jogo, alcoolatra, homofobo, que ainda por cima rouba faxineiras pobres e não paga a pensão da filha. Ai eu pergunto: o que Gilberto Braga tem contra o jornalista? trauma de alguma materia mal feita?
Não é a primeira vez em que o autor avacalha a minha profissão. Em Celebridade, Renato Mendes (Fabio Assunção) é inescrupuloso, mau e assassino. Havia um jornalista sério e competente que era alcoolatra. Republico uma crônica escrita na época de celebridade:

Jornalismo sério nunca será careta

Fatima Dannemann

Eis que assistindo uma novela, uma afirmação de um personagem me fez arrepiar dos pés a cabeça de susto e indignação. Na cena de uma reunião, um jornalista refere-se a outro, indicado para um cargo de confiança como “um cara careta, cheio de princípios retrógrados como ouvir mais de uma fonte, sempre buscar a verdade e ser imparcial”. Tremi nas bases. Não sabia que tudo pelo que lutei a minha vida inteira, a verdade, fosse careta. Sim, sei que muitas vezes fiquei de castigo, fui punida em escola, trabalho, por ser verdadeira, sincera, por falar a verdade e assumir meus erros, enquanto pessoas que mentiam eram até recompensadas com boas notas ou promoções. Sou daquelas que seriedade e verdade são, sim, princípios ousados por que exigem muito mais trabalho e mais coragem.

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Ouvir uma única fonte pode ser correto quando você vai entrevistar um cantor ou cantora sobre seu novo disco (e mesmo assim se você puder ouvir alguém da equipe técnica ou da equipe de músicos e arranjadores, sua matéria só cresce, especialmente em credibilidade) ou quando se trata de um médico que descobriu um remédio novo e está apresentando em algum congresso (e mesmo assim sempre que você puder enriquecer com outras fontes seu texto ou matéria de TV só ganha). Mas, mesmo quando o jornalista está presente e assiste aos fatos pode correr o risco da parcialidade, como cobrindo jogos de futebol, estréias de filmes e peças de teatro. Há muito no que prestar atenção para deixar de ser crítico e ser repórter, mas o modo como as redações trabalham atropelam o bom jornalismo.

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Há na Bahia um problema sério: as redações foram “encolhidas” com a desculpa de economia, redução de custos, etc. Eu, mesmo, estou desempregada há três anos. Se antes dos cortes de pessoal o jornalista já saia com duas e até três pautas para cobrir (cada pauta uma matéria, fora eventuais boxes e outros desdobramentos, claro que se tratando de matéroa com griffe de repórteres experientes, sérios e “caceteiros” como Levi Vasconcelos – falar de MFD vai ficar parcial e estranho e Levi, além de grande amigo, é um dos meus exemplos). Claro que isso compromete um trabalho melhor. É preciso mil negociações com o editor para convencer que tal assunto merece um aprofundamento no dia seguinte. Há quem simplesmente queime uma das pautas ou faça o trabalho “de qualquer jeito”. Isso, claro, compromete o jornalismo sério.

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Entretanto, mesmo com esses problemas: excesso de trabalho, condições de trabalho que deixam a desejar (no caso dos fotógrafos é pior, muitos saem com cinco ou seis pautas diferentes além das duas ou três do repórter), muitos jornalistas (pelo menos os do meu tempo) lutam para fazer um bom trabalho. Eu sei que mil interesses estão em jogo: é o anunciante, é a tendência política dos donos do jornal, é o interesse de um assessor de imprensa que sai distribuindo jabás e convites para festas e almoços com boca livre total, é o estrelismo de muitos jornalistas que acreditam que são os máximos dos máximos da intelectualidade mundial quando não passa de um trabalhador de uma linha de montagem que, com o jornalismo on line, passou a ter validade de algumas horas.

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Mas, a seriedade nunca será careta. Muito pelo contrário. A seriedade será sempre um ato de ousadia. No tempo em que as TVs oscilam entre o flerte com o poder da Globo, as baixarias dos Ratinhos e das Marcias, em que as revistas oscilam entre posição pró-americanos, nos tempos em que o must são revistas de fofocas com ilhas, castelos, faqueiros e coleção zen-superficialmente, é preciso ser mais sério ainda para não cair no descrédito. O público não é bobo e no fundo quer isso: seriedade. Mesmo que isto custe ao jornalista sacrifício, salários baixos ou mesmo desemprego. O que o personagem da novela falou foi um erro de cálculo. E todo mundo podia passar sem isso.