Fátima Dannemann

– Ali a esquerda fica a faculdade de comunicação… Ninguém leu errado. Faculdade de comunicação, sim. E melhor: um ponto turístico em Varsóvia, capital da Polônia, país que há 15 anos se libertou do ultimo “grilhão” e vem fazendo uma nova história. Nova, sim, totalmente, porque se tornou um dos raros países europeus onde a população é predominantemente
jovem. Pois é. Pouca gente sabe maiores detalhes, mas a Polônia é um país jovem, bonito e alegre apesar das feridas do passado ainda não terem cicatrizado totalmente. A pior delas? A dominação soviética. Há poloneses que se mostram capazes de perdoar os alemães, “porque o mundo estava em guerra e nem todos eram nazistas”, mas de não perdoar os russos, “eles ficaram aqui por 40 anos. Mataram mais”. Das mazelas, sobraram enormes caixotes cinzas chamados de prédios de apartamentos que vão sendo modernizados pelos moradores. Antes não tinham elevador, nem banheiro, muitos não tinham nem janelas. Agora, alem de tudo isso, ainda ganham cores e jardins. Coisas de uma Polônia que nasce (ou renasce) para o mundo.

Essa é a maior surpresa que o brasileiro tem quando chega ao país lá no norte da Europa, à beira do Mar do Norte. As tristezas estão ali em forma de museus de horrores como Auschwitz, mas a alegria é maior. Ninguém esquece o passado. Mas, os milhares de estudantes que moram e freqüentam as universidades de Cracóvia são pura alegria ao saírem às ruas vestidos de Branca de Neve e os Sete Anões, sem medo de ser feliz. Nas ruas largas da capital, presença de griffes famosas denunciam que tempos de cafonices e roupas escuras ficaram em algum canto dos livros de história. Guias mostram detalhadamente o castelo do rei Poniatowski, lembranças de uma
era muito mais gloriosa em que amantes do rei eram presenteadas com castelos em um parque maravilhosamente verde que em muito lembra os trianons de Versailles, com uma diferença: os reis poloneses amavam o povo, a democracia e a liberdade. Estavam tão à frente de seu tempo, no século XVIII, que a monarquia acabou não dando certo.

O país ama a liberdade, sempre teve artes e ciências avançadas, uma religiosidade a toda prova e talvez por isso tenha sido escravizado e seu povo sofrido horrores. Na segunda guerra mundial, havia mais de 40 campos de concentração onde morriam não somente judeus, mas
poloneses e, já no final da guerra, gente de todo o continente europeu. Auschwitz, Bierkenau, Treblinka, nomes que são mais que dados a serem decorados por estudantes de história. São palcos de terror. Trabalhar como guia em Auschwitz onde ainda se sente cheiro de corpos queimados é tão penoso que as equipes trabalham dois meses e descansam um. No máximo. Do gueto de Varsóvia, onde milhares de pessoas foram trancafiadas dentro de um
muro e depois incendiadas, sobrou um memorial com muitas fotos e um monumento.

Apesar disso, o país não perde o pique e vem se refazendo. Já aderiu à Comunidade Européia, vem fazendo uma série de obras e melhorando toda a infra-estrutura que andou uns 40 anos atrasada (é impossível ligar direto ou a cobrar para o Brasil, entre outros detalhes). Como boa parte da população morreu durante as dominações nazistas e comunistas, o país vem refazendo seu povo que é jovem, bonito, alegre, bem vestido, e criativo e culto como dois de seus maiores expoentes, o compositor Chopin e o astrônomo Nicolau Copérnico, sem falar no mais famoso deles, o papa João Paulo II. Longe das mazelas históricas, os bares e restaurantes, muitos deles com decoração primorosa, fervilham de pessoas que aproveitam o dia que se estende, no verão, até mais tarde. A cozinha é um primor. Em lugares como o I Fuskiero, na Stare Miasto (cidade antiga) de Varsóvia, restaurante visitado por chefes de estado e celebridades do mundo artístico, come-se muito bem e bebe-se melhor ainda, principalmente vodka e cerveja. As especialidades variam entre os Pierogis, espécie de empadinhas cozida, aos Zhurak, sopa que mistura queijo, presunto, batata, gratinada no forno e servida num pão. Sem falar nos doces e sorvetes. A Polônia é uma festa. Depois de uma era de dominações, o pais respira liberdade e transforma tudo isso em juventude e alegria. Uma grata surpresa, como a primavera que volta todos os anos depois dos rigores do inverno…

(republicada em homenagem póstuma ao presidente da Polonia)