Maria de Fatima Dannemann

-Bom dia, doutor, aqui estão os resultados do exame…
(silêncio total na sala de consultas enquanto o médico lê e toma notas)
– E então, doutor? Alguma coisa errada?
– Não, não…
– O colesterol? Triglicérides?
– Ah, o colesterol está normal, 225…
– Tudo isso? 225 não é normal, o normal é 200…
– Ah, mas é pouco. Até 250 dá para levar…
– E o senhor não vai me mandar fazer uma dieta? Cortar gordura?
– Não precisa dieta, não. Está tudo normal.
– Normal?
– Bom, você faz um regime de segunda a sexta e cai matando no fim de semana.
– Que tipo de regime? Corto doce? Corto gordura?
– Nem precisa cortar nada. Come um pouco menos e já está bom.
– Não tem lista do que pode comer e do que não pode?
– Lista? Ah, leia em revista de fofoca. Sempre tem um regime da moda. Veja o que os artistas estão fazendo e imite.
– E o senhor não vai perguntar pelo histórico familiar?
– Histórico o quê?
– Se entre meus ascendentes teve caso de doença cardíaca, câncer, diabetes, glaucoma, o senhor sabe, doenças em que o fator genético é importante.
– Ah, não precisa, não. Isso é besteira…
– Pois têm todas essas doenças na minha família.
– Mas seus exames estão normais, não tem nada demais, não. Isso de genética é conversa. Eu não ligo para isso não.
– Doutor, eu fumo.
– Quer um cigarro?
– Não, doutor, eu não quero um cigarro. Queria saber é se o senhor não vai me mandar parar de fumar.
– Você está parecendo aquele cara do anúncio do plano de saúde. Com mania de doença. Fumar não tem nada demais. Pode fumar tranqüilamente. Eu fumo.
– Muito bem, doutor. Eu levo vida sedentária. O senhor não recomenda exercícios físicos?
– Deixe eu ver… Você pode usar a escada em vez do elevador.
– Mas eu já faço isto.
– Ah, exercício demais não faz bem à saúde, não.
– Doutor, e minhas alergias? Eu tenho alergia a um bocado de coisas.
– Eu também. Todo mundo tem alergia. Qual é o problema? Quando a alergia atacar, tome um antialérgico e pronto. Coisas de vida moderna. Não tem jeito.
– E o estresse?
– Que estresse?
– O ser humano moderno convive com o estresse. Especialmente em algumas profissões.
– Ah, você chega em casa e relaxa vendo o noticiário da televisão.
– Mas logo o noticiário, que só passa tragédia?
– E daí? É melhor do que ler a página de polícia dos jornais…
– Bom, doutor, o senhor não perguntou, mas eu tive outras doenças além desarampo e catapora quando eu era criança…
– (Depois de uma série interminável de doenças) Tudo bem, tudo bem, a consulta acabou…
– Não vai receitar nada? Nem uma vitamina?
– Tá bom, vai um remedinho de verme. Todo brasileiro tem verme, mesmo…
– Doutor, este remédio é para protozoário.
– E daí? É tudo a mesma coisa.
– Qualquer vestibulando sabe que verme não é protozoário. Verme é verme e protozoário é micróbio.
– E daí?
– Daí que eu tenho mais uma pergunta: no balaio que o senhor pegou seu diploma tinha algum sobrando?…

PS – Esta história é verdadeira e nem médico, nem paciente são do SUS.