Fatima Dannemann

 

Filósofos, sociólogos, psicólogos, geralmente imersos em suas faculdades e academias, estão perdendo um grande laboratório de todas as perversões e idiossincrasias humanas. Não. Não é o submundo. Pelo contrário, é o lugar considerado mais família da face da terra: o supermercado. Sim, o supermercado em todas as suas versões. Desde os megamercados ao mercadinho da esquina passando por sua versão luxo: as delicatessen. Simples: some um governo desonesto que penaliza as pessoas com preços altos, um dia chuvoso sem opções de lazer, o binômio desigual de excesso de trabalho e escassez de salário, a solidão das grandes cidades e todos os males incubados como transtorno obsessivo compulsivo, fobia social, depressão, bipolaridade e sabe-se lá o que mais. O resultado é uma explosão de empurrões, pontapés, xingamentos, caras fechadas. Ah, e isto inclui clientes e funcionários pois ao cair das máscaras, não se salva ninguém.

Incrível o que um carrinho de supermercado e uma lista de compras produzem no ser humano. Todo seu egoísmo e espírito selvagem vem a tona. Enquanto uma dona de casa xinga os produtores de tomate porque, desde que os nutricionistas descobriram suas propriedades rejuvenescedoras, o preço disparou no mercado, outra empurra o carrinho em cima da demonstradora de uma barrinha de cereais. Lágrimas vem nos olhos da garota mas disseram a ela que “o freguês sempre tem razão” e ela apenas agüenta a dor – pior é a humilhação – calada. Pois é, ninguém pede licença para atropelar ninguém com o carrinho e quando são as promotoras que oferecem provas de salgadinho, folhetos com receita ou anunciam promoções de uma marca de shampoo. “Ninguém imagina o que eu passo aqui, desabafa a menina atropelada a única cliente que para pra perguntar se ela teve alguma coisa”. Pior é a humilhação.

Nos horários de pique, o espetáculo é ainda mais deprimente e lembra velhas brigas entre as tribos primitivas. Salve-se quem puder. Empurra daqui, empurra de lá e ainda usam-se velhinhas para garantir prioridade na fila por causa da idade (delas) embora quem pague a conta, muitas vezes, tenha menos de 40 anos. É uma luta de vale tudo. Caixas fazem cera esperando a hora de ir embora. As filas adentram os corredores e clientes que passam se embolam com clientes que estão na fila em uma batalha verbal de baixíssimo calão onde nem a mãe é poupada. Se alguém abre a boca e reclama, olhares furiosos lhe fuzilam e o fiscal dispara condenando: “o senhor foi o único que reclamou”. Reclamar, nos supermercados, dá em nada. Essas lojas, que estão cada vez mais self-service desde que metade dos empacotadores foram dispensados para “contenção de despesas”, ignoram os direitos humanos.

Um deles, o direito de transitar em locais públicos. Que público? Um nome impresso nos saquinhos plásticos, anuncio em rádios internos lembram que aquilo lá é mais particular do que condomínio de luxo e mais: piquetes deixam de fora os pivetes e pedintes. De vez em quando um deles fura o cerco mas o segurança “aconselha” a deixar o recinto. E alguém que pode ser a mesma pessoa que envia e chora ao ler “lindas mensagens formatadas” na Internet comenta com rispidez: “ainda bem que espantaram os pivetes”. Nem tanto. Eles ainda se prostam nos locais de acesso num corredor polonês constrangedor. Ou você dá ou quem sabe até morre. Mas você não tem para dar, poderia estar ali engrossando a fileira de pedintes se golpes de sorte não lhe ajudassem.

Guerra é guerra. A mídia sempre falou em guerra de preços, na época do Plano Cruzado, donas de casa enfurecidas destilaram toda sua intolerância – ou seria vontade de aparecer? – contra gerentes de supermercados por aumento de preço ou sonegação de mercadoria. Mas, os donos das lojas assistem a tudo convenientemente de longe. Alguns freqüentam colunas sociais e revistas de fofoca. Outros não fazem questão disso. Poucos devem saber o que se passa lá dentro. A imprensa pouco noticia porque sua presença não é lá muito bem vinda. Estudos científicos? Bom, os esquimós devem ter mais a oferecer sobretudo no calor dos iglus porque todo mundo pesquisa esquimós e nem a metrologia vai ao supermercado conferir que os produtos em oferta estão com sua data de validade praticamente vencida. Só que os supermercados são um prato cheio para os humanistas justamente por sua falta de humanidade. Nos corredores entupidos de carrinhos, nas filas gigantescas e nos estacionamentos onde cada cliente quer mostrar que Airton Senna não morreu transitando em velocidade elevada e se lixando para quem está a pé buscando seu carro ou indo para a loja vê-se o quão selvagem é o ser humano. Mas fale disso com eles e…