Anunciaram que o homem ia pousar na lua. Dona Marota, não acreditou. Mas,
quando soube que iam colocar uma televisão na pracinha para mostrar a
façanha, ela foi a primeira a ficar no maior assanhamento.
Vestiu roupa de ver deus, tomou banho de perfume com seu melhor
espanta-nigrinha e foi-se para a pracinha mais cedo. Chegou cedo, mas não
adiantou nada. Não podia nem marcar lugar. Tava a maior confusão.
A mulher do prefeito arrumando os arranjos de flores, não se sabe porque,
nem pra que, mas tava cheio de arranjo de flor. Os garis varriam o chão que
estava cheio de cocô de passarinho por tudo o que é canto. E a banda de
música ensaiava uns dobrados pra tocar quando o homem pousasse na lua,
fincasse a bandeira americana e dissesse a famosa frase “a small step to
man, a giant leap for mankind”. O lugar estava enfeitado com bandeirinhas de
papel como convém a toda festinha do interior. Na verdade, nem são
bandeirinhas, mas tiras de papel que nego amarra no cordão e depois nos
postes. Sabendo que ia dar um monte de gente, o pipoqueiro providenciou uns
grãos de milho extra. Dona Marota sentou-se no lugar reservado aos idosos.
 Mas, as meninas da cidade preferiram nem sentar. Em pé, lá no fundo, elas
preferiam mesmo vasculhar o horizonte em busca dos rapazes. Lua? Que lua?
Por mim, já pousaram lá tarde, eu quero é um namorado, pensava a mais
assanhada de todas, Veroniquinha, que usava um vestido negro colado no
corpo, e trazia uma fita do Bonfim amarrada no tornozelo.Ela gostava de
inovar, pensava enquanto assistia seu milkshake de morango formar borbulhas
no liquidificador da sorveteria. Isso era mais interessante.
 E e repente, Armstrong pousou no Mar da Tranquilidade e começou a caminhar.
“Deve dar trabalho vencer a força da gravidade”, pensava o filho do
prefeito, um menino franzino, de óculos, mas muito estudioso. Os garis
ficaram por ali, vassoura em punho. E se de repente os passarinhos
bombardeassem a platéia? Mas, ninguem ligava para esses pequenos detalhes
nojentos. Assistir a chegada do homem a lua era muito mais legal. Naquela
cidade, onde nunca acontecia nada, mesmo, foi feriado. E mesmo assim, tem
gente que não acredita.