Hoje resolvi escrever sobre amenidades…  Precisamos e no caso eu preciso. Nesses ultimos dias venho me sentindo meio desgostosa. Dá até vontade de culpar a mídia mesmo conhecendo a mídia em seus mínimos detalhes e sabendo que eu, enquanto jornalista e mesmo como público, sou parte dela.

Sim, acho que o público também faz parte da engrenagem que se chama mídia. Isso que as pessoas esquecem: todos são parte de sistema e amidia aliás é apenas o nome genérico que se dá aos diversos meios de formar a opinião pública. O que ocorre é que os meios de comunicação ou quem está por trás deles manipulam essa opinião. Isso ficou claro no caso Eloá. Com o seqüestro (desculpem reformadores ortógraficos, eu ainda uso trema) da menina em Sâo Paulo, assuntos mais importantes e mais vitais ficaram esquecidos. Tudo por conta da sede de sangue que o ser humano tem. Algo como a idéia de que ver alguem bem é bom, ver alguem mal é melhor ainda. Errado, claro, mas tem gente que precisa ver alguem sofrendo para se sentir “aliviado”.

Eu fico pensando: quem tem mais sede de sangue? Locutores e repórteres de rádio e TV que precisam de noticias que dão Ibope ou o povo? O povo é belicoso. Não suporta paz porque alguem associou paz ao tédio. A sede de briga vem daí e se a briga for com os outros melhor. Quando isso ocorre em novela, tudo bem, mas quando ocorre na vida real, o bicho pega. E acontece que nem naquele filme (péssimo aliás) desventuras em série. Uma coisa puxa outra…

A mídia é apenas o meio mas podem acreditar: o que a TV, os jornais, a net mostram é a vida. Claro que aqui eu falo de fatos e noticias que ocorrem independente dos assessores de imprensa ou dos publicitários. Esses cuidam do oba-oba como o filho de Ivete Sangalo (que perdeu o bebê, tadinha), o “engajamento” de Gisele Bündchen a causa indigena (para vender sandálias, mas tudo bem), o lançamento dos novos blockbusters no cineplex mais próximo e vai por ai… Que aliás nem são fatos, são eventos.

Falando nisso fato e evento têm diferença, eu acho. Vejam bem: estou dizendo ACHO… Donde se conclui: suponho. Fato me lembra destino, algo que aconteceu porque tinha que acontecer ou porque aconteceu mesmo, infelizmente, e pronto. Evento é programado. Não está traçado pelo destino ou não foi provocado (proposital ou acidentalmente por alguem) mas programado nos mínimos detalhes. Até se repetem mas são sempre diferentes.

E essa coisa de fato e evento me lembrou do assassinato de Isabella Nardoni, no começo do ano, e da menininha portuguesa, uma história internacional até hoje enrolada mas meio esquecida, ou da austriaca presa pelo pai no porão por uma vida inteira. Estardalhaços. Como o de Eloá. Amanhã ou depois acontecem outros fatos – ou outros eventos – e tudo vira episódio de uma mesma novela chamada Vida Real que acontece 24 horas por dia no noticiário mais conveniente.

Mas eu não estou reclamando, até porque seria paradoxal. Sou jornalista, parte dessa máquina que produz noticias baseadas em fatos – ou eventos – para alimentar a sede do povo… E pensar que alguem poderia ter associado paz a alegria e festa. Ai, bastariam luzes… e pronto.

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