Fatima Dannemann

 

            Não, o dia não prometia ser dos melhores. Um vento forte soprava vindo do mar. A chuva caia fina entre os raios de sol que a nuvem escondia. Nos corações, tremulava uma bandeira verde-amarelo. E vestiu-se a camisa canarinho pela última vez naquela Copa. Os pulsos tremiam, a garganta prendia um grito que não vinha. O Hino Nacional passou batido enquanto alguém cantarolava A Marselhesa. E noventa fatais minutos depois pulso acelerado e grito sufocaram  transformaram-se num choro quase convulsivo. Era o Brasil dando adeus a sua maior alegria. Era a seleção de estrelas deixando o gramado e tirando do povo a alegria que ainda lhe restava, o futebol, pois a outra, o Carnaval, há muito lhe tiraram.

             Não, o dia não foi dos melhores. E a essa altura parecia um pesadelo. Enquanto o vento uivava como em filmes de terror e a chuva açoitava os vidros das janelas, a festa acabava melancólica. Parreira não deu frutos, ninguém ergueu a taça dessa vez. O clima esquentou e alguém dizia “a culpa foi sua por não gostar de Ronaldo”. Culpa… Porque o ser humano sempre insiste em culpar alguém por tudo e por nada? Parreira não escalou Cicinho, Cafu estava ruim. “Ah, Roberto Carlos, está tudo terminado entre nós. Não sou mais sua fã”. Um choque. Onde estava o time que goleou Gana? O que brilhou contra o Japão? Cadê a galera de 2002? E Robinha que não pedalava? Nem Dida fez milagre e tome bola francesa no fundo da rede. De quem foi a culpa, Ronaldinho?”

             Não, o dia foi simplesmente chato. Um daqueles sábados de chuva e jogo da Copa em que nem cinema funciona. “OK, você venceu, de manhã estava a maior animação na cidade”. Ninguém nega. Caixas da padaria da esquina contavam os minutos para ir pra casa. No marcadinho do outro lado da rua, os funcionários vestiam verde e amarelo e prometiam tomar todas. “E a final, gente, vai ser a maior alegria”. Só se for para franceses, alemães, italianos ou portugueses, quem sobrar para erguer o troféu e perenizar sua imagem no tempo e no espaço levando alegria para outros povos, gente que talvez nem ligue para futebol.

              Para o brasileiro… “Bom, nenhum político vai usar a Copa para ganhar a eleição”. Pelo menos. “Tem o final de Belíssima, essa semana, acho que o criminoso é Bia mesmo e pronto”. Grandes coisas. “Ah, quem sabe agora os ladrões do mensalão e do valerioduto vão presos”. Vão sonhando com algo mais difícil do que o hexa. E as conversas rolam sobre a mesa onde as garrafas de licor de genipapo repousam intacta (e quem seria bobo de tomar uma a essa altura do campeonato?). “Esquisito, mas o Brasil não jogou nada”. “Pô, Parreira é uma mula, que cara teimoso”. “E aqueles abraços no Zidane, heim? Que esquisito”. “Xi, será que rolou grana?”. Mães explicam aos filhos pequenos que choram “esporte é assim, um dia a gente ganha. Mas não se pode ganhar sempre”.

               Alguém lá na Alemanha soube como acabar com a alegria do povo brasileiro. Um povo sofrido que convive com problemas eternamente insolúveis: fome, desemprego, saúde, educação, a corrpução do governo. Para descarregar, Carnaval, que as elites transformaram em festa cheia de frescura e inacessíveis à maioria da população e futebol, com times deixando o povo furioso em muitos momentos. E a Copa… O destino do país entregue a onze pares de pés. Alguém finalmente descobre de quem foi a culpa: de uma capivara de pelúcia. “Você esqueceu de pegar a capivara, ta vendo ai? O Brasil perdeu”. O jeito agora é guardar a Capivara para 2010. Ai, quem sabe… Afinal, o mundo dá voltas.

 

Julho de 2006

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