Canto Profano
 
Fatima Dannemann
 
Profana sou
Nunca fui santa
E vôo por ares
nunca permitidos aos inocentes
Sou movida pelo vento dos audazes
e ouso.
Tal como fera, espreito
Tal como águia, pairo no ar
Eu brilho
Tal como uma fada de culto pagão
Solto-me no espaço
Sorrio
E ouso rir com o rugido das leoas
Não mais escondo minhas garras
Sou muito de fera e águia
E nunca santa
projeto-me no espaço
com toda plenitude
tal qual anjo
E sou mais que básica
Torno-me elemental
quase uma deusa como Afrodite ou Freya
mas não sou santa
e sou profana,
Sou mais que isso
E sou muito mais que isso
por ser de carne e sangue
por ter alma e sentidos.
E por não ser de cera,
e por ter alma e carne
Ouso traçar meu destino
E cruzo meu destino aos de outros seres
e misturo minha vida a outras vidas
sou a luz do fogo
e solto-me nas chamas sem medo
E me entrego a vida de outros seres
Já não tenho medo das feras
pois sou fera e fêmea
E aplaco a sede dos machos
e rasgo as vestes etereas e efêmeras
das falsas inocências.
Profana sou
mas vou sacralizando a vida
em mundos nunca revelados aos inocentes
e a loba engole a fada
E a leoa assume a menina.
Sou a luz de todas as faces de um  mesmo prisma.
Mas não sou santa, embora divina.
Tal como um totem abençoado
sou um marco de mim mesma
Sou um ser de veste de luz
e, sobrevoando águas revoltas, me solto.
E sou profana.
Nunca fui santa:
eu tenho luz.
 
madrugada de 21.6.2004 – com o sol quase em câncer..

 

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