Fatima Dannemann

As vezes, o amanhecer me parece um processo complicado.
Não basta o sol nascer
para que um novo dia comece,
mas tudo vem acompanhado de uma complicada mise-en-scéne.
Começa pelo sol, que surge aos poucos
e só algumas horas depois é que lança
seus raios luminosos no ara com toda sua plenitude.
Não basta amanhecer,
é preciso acordar as pessoas
e fazê-las retomar a vida pensando, pensando,
pensando sobre a própria vida
como se as outras horas do dia não fossem feitas
para pensar na vida
e tivessem outras finalidades.
O amanhecer é tão complexo,
que antes mesmo de amanhecer
é preciso que o mundo faça um minuto de silêncio
ou mais que um minuto.
E esse silêncio deve ser quebrado por barulhos mecânicos.
O liquidificador que dispara na cozinha –
mas isso já falei em outro poema.
O riso dos bebados cantando “não se vá” –
mas isso foi quando morava em outro endereço.
E o ônibus que passa barulhento
e lembra: hora de trabalho, para quem tem trabalho, claro,
porque na terra do desemprego, quem trabalha é rei.
Amanhecer é um processo estranho.
O dia avança, mas os postes continuam acesos
até que alguem se lembre: é dia. E ai, apagam-se as luzes.
No banheiro, alguem joga agua fria no rosto,
um castigo por ainda ter sono
ou um modo de acordar a pulso e lembrar:
tenho que cuidar da vida.
Na janela, uma nesga de mar vai ficando
mais e mais azul.
Os quartos na casa em frente se apagam.
Alguem acordou, ou quem sabe, só agora foi dormir.
O amanhecer é uma peça de teatro
em cartaz em todos os cantos do mundo,
na mesma bat-hora, mas em bat-canais personalizados,
depende de quem vê o dia amanhecer, e como.
É a hora de olhar pro teto,
pensar na vida,
fumar o primeiro cigarro do dia e pensar:
– esquisito, hoje largo esse vicio.
É a hora das resoluções de dia novo.
E um renovar do tudo velho,
como o luminoso da farmácia que permanece aceso
lembrando: 24 horas, a exata duração do dia.
Amanhecer é assim: uma cena que se repete
todos os dias, em todos os cantos do mundo,
e que muita gente nem observa,
é apenas a continuação da vida.

– O amanhecer sobre a Medina de Sfax, segunda maior cidade da Tunisia, me inspirou a republicar esse poema

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