Fatima Dannemann *

Crash, em inglês, significa, grosseiramente traduzido, batida de carro. Crash, filme de estréia de Paul Haggis na direção, fala justamente das trombadas e colisões que os seres humanos, das mais diferentes profissões, etnias, religiões, raças, formações, nas grandes cidades. Histórias que se entrelaçam como parachoques, em alguns momentos, mas que depois se desembaraçam e cada um segue seu rumo. Uns choram seus mortos, outros dizem aos amados “eu te amo”, uns abraçam os filhos, os outros lamentam a vida.

Paul Haggis, roteirista de sucesso, autor, entre outros, do roteiro de Menina de Ouro, vencedor do Oscar deste ano, teve a idéia deste filme em 1991 quando roubaram seu carro, em Los Angeles. A perda material, o envolvimento com policia, autoridades, etc, fez com que ele refletisse sobre a vida nas grandes cidades, o poder de organizações como TV, cinema, empresas e principalmente justiça, sistema de saúde e policia e chegasse a conclusão que justamente posturas “politicamente corretas” cedem lugar ao preconceito.

E pessoas que nunca se viram antes acabam vítimas da maneira de pensar racista e discriminatória das outras. Primeiro, dois jovens negros que roubam o carro de um casal branco só porque foram maltratados em um restaurante. Depois, um jovem mexicano que troca farpas com um persa dono de uma lojinha arrombada e roubada diariamente por um desses grupos “anti-arabes”. Um detetive negro e sua namorada de origem latina. A mãe drogada, o irmão bandido. O casal branco formado pelo marido promotor de justiça vaidoso e que adora aparecer e a esposa histérica que se acha infeliz.

Quem presta atenção nota que Haggis usa dos mesmos ambientes pouco iluminados e esfumaçados de Menina de Ouro. Como no filme que ganhou o Oscar, aliás, a surpresa é que o filme não é mais um desses policiais que daqui há meses vão passar em algum canal de TV. Não. Crash é humano. É a vida como ela é. Sem julgamentos. É coreano interagindo com brancos que não distinguem asiáticos de africanos. É o policial que um dia se horroriza do comportamento do parceiro, no outro dia salva alguém de prisão injusta, mas no terceiro mata por acidente.

Crash é o drama da dondoca que não sabe porque é infeliz até que rola da escada e sua amiga rica e branca não pode lhe salvar por estar tomando massagem. Ela ai aceita o socorro da empregada portorriquenha. É o persa horrorizado por lhe confundirem com um árabe, a mulher de um diretor de TV afro-americano que passa por abuso sexual e precisa inocentar o marido e ao mesmo tempo é salva pelo mesmo policial branco que lhe intimidou na véspera. Crash acontece em Los Angeles, mas poderia ser ambientado em São Paulo, Rio, Londres, qualquer grande cidade, onde pessoas que deveriam se aturar em nome da “fraternidade” (o filme mostra o tempo inteiro que é época de natal) brigam, discutem, se engalfinham, trocam tiros, roubam.

Para o elenco, Paul Haggis garimpou nomes conhecidos do grande público. Don Cheadle, indicado ao Oscar de Melhor ator coadjuvante este ano por Hotel Ruanda, faz o detetive negro com a maestria de sempre. Sandra Bullock é apenas uma coadjuvante. É a esposa do promotor que tem o carro roubado e depois rola escada abaixo. Brendan Fraser é o marido. Matt Dilon é o policial durão com os negros que luta para que os planos de saúde autorizem a cirurgia do pai doente. Chris Ludacres Bridge e Larence Tate são os ladrões de carro. Shaun Toub faz o persa Farhad, que protagoniza cenas das mais dramáticas. Se algum desses nomes for indicado ao Oscar não é de espantar. Acrescentem-se aí Thandle Newton, a afro-americana molestada pela policia, e Terrence Howard, o diretor de TV. Coadjuvantes, sim. Mas nessa história, como na vida cotidiana, todos os atores são protagonistas. Até a Sandra Bullock, mesmo como mero chamariz nos cartazes promocionais.

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