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Fatima Dannemann

              Sou uma contadora de histórias. Histórias que não invento. Na verdade reconto histórias. As pessoas me contam. Eu apenas passo adiante. Todos os dias saio pela cidade, presencio fatos, ouço pessoas contando as histórias de suas vidas.
              Não, eu não embalo crianças. Mas as vezes alimento sonhos, crio pesadelos, faço com que as ilusões se percam na poeira do tempo.        Mas conto histórias. É a moça da periferia que se queixa da trouxa de roupa pesando na cabeça. É o vendedor de coco verde se queixando da concorrência com a água de coco engarrafada. Mas nem sempre são lamentos. As vezes, minhas histórias também ajudam a espalhar alegria.
              Se há uma festa e estou lá, falo sobre o sorriso que vi em cada rosto. A sensualidade do requebro dos corpos dançando em qualquer ritmo, numa música qualquer que depois de algumas cervejas ninguém nem ouve. Se morre alguém, aí é doloroso.  É preciso descrever todo o pesar que vejo. Como se sentimentos pudessem simplesmente ser transformado em palavras.
             Porém,  é quando tudo está errado que abro a boca e berro. Aí, conto uma história amarga, porém necessária. É preciso consertar os erros, será que ninguém enxerga?
            E minhas histórias são feitas em linha de montagem. Não preciso inspiração. Bastam subsídios. Não preciso inventar nada. Basta seguir as regras que traçaram para mim no manual de redação. Onde consigo as histórias. Na rua, nos gabinetes, nos salões, nos barracos de periferia. Não as invento. Elas apenas existem e eu procuro traduzir em palavras.
            Não embalo ninguém. Sou apenas repórter.

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