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Fatima Dannemann

 

             Do sexto andar, ali da esquina, dá para ver a estação. Ônibus vão, vem, dão a volta. Os bondes param num terminal próximo. As passagens são vendidas na lojinha de um Sikh ali mesmo no terminal. E num fim de tarde, tomar o Bonde numero 5 e ir explorar Viena parece um programa interessante. Andar por ruas nunca dantes visitadas, sair do circuito dos Castelos e ver a cidade por outros prismas. Interessante. È a vida normal dos austríacos que vão para casa, depois do trabalho ou da escola. Ou algumas moças que vão para a “batalha” de bota e minissaia parecendo mais a noiva do cowboy do que alguém do centro da Europa.

             No cinco, enquanto Apolo despeja os últimos raios de sol nos canais do Danúbio, uma Viena diferente se abre aos que vêm de fora. Não… Schonbrunn, o Palácio, é apenas um sonho distante do city-tour da manhã. Catedral, Igreja Votiva, Hofburg, desses, se vêem apenas as torres. As elegantes ruas de pedestres com lojas de griffes, chamarizes para os consumistas de todas as nacionalidades, são apenas evidencias em sacolas abarrotadas de compras das mulheres que voltam para casa. No bonde, outros caminhos se abrem. “Primas” indo fazer  “ponto” perto das rodas gigantes do Pratter, no final de linha, casais de namorados, cachorros, bebês no carrinho, esudantes, pessoas idosas, meninos, imigrantes, gente de todo tipo e do tipo que os guias de turismo escondem.

             Quase ninguém se olha nos olhos. Cada um em seu espaço, vivem-se os direitos humanos que a Áustria garante a todos os seus habitantes (cidadãos ou emigrantes). Ir, vir, morar, trabalhar, comprar, beber cerveja em uma das cervejarias repletas, comer torta de chocolate, aproveitar a liquidação de sombrinhas oportuna num momento de chuva de verão. Vaguear pelos parques que rodeiam os castelos e museus. Viena é uma festa para seus habitantes e descobre-se um lado moderno e audaz nas lojas de informática, eletrônica, decoração e joalherias. Valsas, brilho, purpurina? Muito lindo mas chamariz para turista. Tudo longe dos olhos dos passageiros do “5”, que, como todos os mortais do resto do mundo, aproveitam a viagem para namorar, conversar, ou apenas ler revistas de fofoca.

              O bonde nem leva tanto tempo para ir da Ost Haupt-Banhof  (deve ser este o nome, mas o que importa o nome) ao Pratter (com certeza é esse o nome do famoso, mas agora decadente, parque de diversões repleto de rodas gigantes que já não são as maiores do mundo). Vai passando por ruas de todos os tipos. Umas largas, outras tortuosas. Umas de comércio mais chique, outras mais populares e residenciais. Passa por restaurantes e cafés onde pessoas bem arrumadas vão jantar, e por algo parecido com botecos onde homens tomam algo parecido com pinga antes do jantar. Tinha que ser assim, afinal, a Áustria se preocupa com o cidadão. Dá a ele trabalho, bons salários, assistência de todo o tipo. Por isso, perto do final de linha, um único “pivete” pedindo esmolas na sinaleira corre de medo ao ver a Policia. A mesma Policia que, minutos antes, revistou bagagem e conferiu documentos de punks que vagavam pela rua. Ameaçar a segurança alheia? Pedir o que é dos outros? Não pode não…

                O “cinco” vai e volta da viagem praticamente lotado. Vê-se de longe a Praça da Catedral onde uma mulher insiste em assistir a ultima missa do dia. A essa altura anoiteceu mas o bonde tem mais algumas viagens antes de parar para “descansar” até o dia seguinte. Turistas, imigrantes, curiosos, nativos, gente a caminho do trabalho, da escola ou mesmo de canto nenhum, passará por ele. No caminho, uma Viena, longe dos Palácios, museus e das valsas, que muita gente até vê, mas será que alguém repara?

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Fatima Dannemann

              Sou uma contadora de histórias. Histórias que não invento. Na verdade reconto histórias. As pessoas me contam. Eu apenas passo adiante. Todos os dias saio pela cidade, presencio fatos, ouço pessoas contando as histórias de suas vidas.
              Não, eu não embalo crianças. Mas as vezes alimento sonhos, crio pesadelos, faço com que as ilusões se percam na poeira do tempo.        Mas conto histórias. É a moça da periferia que se queixa da trouxa de roupa pesando na cabeça. É o vendedor de coco verde se queixando da concorrência com a água de coco engarrafada. Mas nem sempre são lamentos. As vezes, minhas histórias também ajudam a espalhar alegria.
              Se há uma festa e estou lá, falo sobre o sorriso que vi em cada rosto. A sensualidade do requebro dos corpos dançando em qualquer ritmo, numa música qualquer que depois de algumas cervejas ninguém nem ouve. Se morre alguém, aí é doloroso.  É preciso descrever todo o pesar que vejo. Como se sentimentos pudessem simplesmente ser transformado em palavras.
             Porém,  é quando tudo está errado que abro a boca e berro. Aí, conto uma história amarga, porém necessária. É preciso consertar os erros, será que ninguém enxerga?
            E minhas histórias são feitas em linha de montagem. Não preciso inspiração. Bastam subsídios. Não preciso inventar nada. Basta seguir as regras que traçaram para mim no manual de redação. Onde consigo as histórias. Na rua, nos gabinetes, nos salões, nos barracos de periferia. Não as invento. Elas apenas existem e eu procuro traduzir em palavras.
            Não embalo ninguém. Sou apenas repórter.

Querem dividir
o mundo em pedaços.
Me pergunto como
se o universo é um só.
Pena que sempre
exista alguem
na disputa.

Fátima Dannemann

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